Cantor Pablo vira febre pelo país; choro provocado por sua música é hit na web

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Adultos bêbados, crianças, cachorros e até um papagaio parecem ser incapazes de segurar as lágrimas ao ouvir músicas de Pablo, criador de um subgênero do brega, o arrocha.

O chororô gerou uma onda de vídeos na rede em que aflitos se descabelam com letras sobre desilusões amorosas.

Um deles mostra o pintor Saymo Souza, de coração partido por Artemisia e intimidade devassada por quem o filmou aos prantos ao som de “Por Que Homem Não Chora”.

Rodrigo Machado/Folhapress
Cantor Pablo canta em Coruripe e emociona população da cidade
Cantor Pablo canta em Coruripe e emociona população da cidade


Ele, que não quis dar entrevista, enxuga as lágrimas com a camisa enquanto Pablo canta ao fundo:”Você foi a culpada desse amor se acabar /Você que destruiu a minha vida”.

Já o cantor baiano de 29 anos odeia chorar em público e diz que evita ouvir Pablo (ele fala de si na terceira pessoa). “Se eu tiver brigado com a mulher em casa, não escuto meu trabalho, senão me acabo na cachaça e choro demais.”

O sofrimento teatralizado em shows e em ao menos 50 vídeos de celular –que ao todo somam 2,5 mi de visualizações no YouTube e são sucesso em redes sociais– é tal que a palavra não deu conta.

Virou “sofrência”. O neologismo incorpora a carência e batiza os shows do cantor pelo país –25 por mês, em média, com cachês de até R$ 180 mil.

Numa “Noite de Sofrência” em Coruripe (AL), no dia 4, a Folha mal conseguiu falar com a estudante Samara Cristina, 26, que não sabia se chorava ou respirava antes, durante e após a apresentação para cerca de 3.000 pessoas.

“Acho que meu choro está além da sofrência. É muito amor por ele [Pablo]. Todas as suas músicas falam de um pedaço da minha vida”, diz.

Para Paulo Cesar de Araújo, autor do livro sobre o brega “Eu Não Sou Cachorro, Não” (ed. Record), de 2002, a comoção tem dois porquês: a veneração de um ídolo pop, eternizada pelos Beatles, e a identificação com temas do brega, como amor não correspondido e separação mal resolvida.

Araújo atribui o sucesso do gênero à fácil decodificação das letras de Reginaldo Rossi, Odair José, Amado Batista, Paulo Sérgio, entre outros. Músicas deles estavam no repertório das serestas em que Pablo começou a cantar aos seis anos, com o pai ao violão.

A venda acanhada de seus três álbuns pela Som Livre (47 mil cópias desde 2013) contrasta com o êxito da estratégia de lançar na internet gravações amadoras de apresentações, que somam mais de 1 milhão de downloads.


VOZ ROMÂNTICA


Pablo nasceu em Candeias, na Bahia, como Agenor Apolinário dos Santos Neto, mas foi rebatizado na infância por um militar que assistiu a um de seus shows e defendeu Pablo no lugar de Agenor para o nome do futuro artista. Tal qual Mirosmar, conhecido hoje como Zezé di Camargo.

A trajetória do cantor de arrocha tem semelhanças à de seu ídolo sertanejo. Ambos foram talhados para a música desde a infância. Pablo começou a cantar a contragosto aos seis anos com seu pai, o seresteiro Agenor Apolinário, o Bico de Ouro, ao violão.

A colcha de retalhos de influências musicais costurada ao longo da carreira foi decisiva para o sucesso atual de Pablo, que se deu o sobrenome de “a Voz Romântica”.


O arrocha combina a dança colada e o alcance popular das serestas, a voz tremida dos cantores sertanejos, o saxofone da música instrumental, o teclado do brega maranhense de Lairton e seus Teclados (“Morango do Nordeste”) e o sentimentalismo da música brega tradicional.

“Como o samba, que agoniza mas não morre, o brega incorpora influências para se reinventar e manter o interesse do público. O arrocha é uma vertente mais erotizada, com lascívia na dança”, diz Paulo Cesar de Araújo, pesquisador de música brega.

O arrocha pode ser dançado a dois, como um forró lento e rebolado, ou sozinho, com o mesmo gingado e o braço direito de “O Pensador”, escultura de Rodin, para refletir a “sofrência” da solidão.

Sidney Molina, crítico de música erudita da Folha, avalia que a sonoridade da canção “Por que Homem Não Chora”, lançada neste ano por Pablo, remete muito mais à balada sertaneja típica, com uma voz principal aguda, do que ao cancioneiro popular nordestino –o forró, principalmente.

Esses elementos rítmicos também estão presentes, com pequenas variações, nas músicas de outros artistas de sucesso do gênero: Silvanno Salles, Nara Costta, Márcio Moreno e Tayrone Cigano.


DESENCONTROS

No documentário “Vou Rifar meu Coração” (2011), a diretora Ana Rieper investiga a relação afetiva entre o público e as músicas bregas de artistas como Wando, Fagner, Amado Batista, Waldick Soriano, Nelson Ned e Pablo.

“Pablo é puro melodrama, chega a pedir socorro para a amada na música que está no filme. [Os vídeos com chorosos mostram que] o Brasil é tão melodramático que não basta chorar, tem que postar, mostrar, exagerar. É a nossa alma romântica que vai com tudo na expressão exacerbada do sentimento”, diz Rieper.

Paulo Cesar de Araújo relata que essa comoção performática é comum na música brega (ou romântica). “As pessoas choravam muito em shows de Paulo Sérgio, Amado Batista, porque eles cantam o desencontro, que acontece com a maioria das relações que as pessoas viveram.”

A única diferença hoje, avalia Araújo, é que os celulares tornaram possível registrar essas reações lamentosas e disseminá-las pela internet.

É o caso de Talita Magalhães Silva, 21, que decidiu filmar seu filho de um ano e sete meses às lágrimas ao som de Pablo, depois que ele chorou duas vezes ouvindo a música.

“Achei bacana o sucesso de bebês chorando na net e pus no Facebook para ver o que acontece.”



Fonte: Folha

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